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Série sobre trabalho docente destaca desigualdades de carreira, território e condições estruturais

13 de janeiro de 2026 Notícias
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O ANDES-SN inicia, nesta terça-feira (6), uma série especial que explora as diversas realidades do trabalho docente nas instituições públicas de ensino no Brasil. 

Por meio do perfil de quatro professoras e professores da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), do Instituto Federal do Paraná (IFPR), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e do Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS), a série apresenta o contexto de diferentes regiões para mostrar como o isolamento geográfico, as disparidades entre carreiras e os cortes orçamentários impactam o ensino, a pesquisa e a extensão.

Além disso, os relatos evidenciam como a precarização das condições de trabalho afeta não apenas à docência, mas também a organização sindical e a própria vida das trabalhadoras e dos trabalhadores. 

Docência na fronteira amazônica
Há mais de 17 anos em Benjamin Constant (AM), Solano Guerreiro leciona no Instituto de Natureza e Cultura da Ufam. O município está localizado na fronteira com o Peru, a cerca de 1.300 quilômetros de Manaus, percorridos pelos rios sinuosos do Amazonas.

Foto: Eline Luz/Imprensa ANDES-SN

O deslocamento aéreo depende de Tabatinga, cidade vizinha situada na região da Tríplice Fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru. Ao descrever a dinâmica de deslocamento e abastecimento na região, Solano destacou as limitações impostas pela ausência de rodovias.

“Um barco saindo de Manaus, levando suprimentos para a região, leva em média de seis a sete dias para chegar ao município de Benjamin Constant. Quem abastece os municípios são os barcos; não há abastecimento aéreo, e pelas rodovias não é possível, porque não existem rodovias interligando a maioria desses municípios. A ligação se dá por hidrovias, pelos rios”, relatou. 

O docente chamou atenção para o impacto dessa realidade no custo de vida da população. “Na época da vazante, que é como chamamos a seca na região, quando o rio baixa bastante, uma botija de gás que antes custava 120 ou 130 reais pode chegar a 200 ou 250 reais. Um garrafão de água já chegou a 30 reais. Então, os custos ficam elevadíssimos, quase dobram, e o salário da população continua o mesmo. Já é difícil se manter normalmente; nesse período, fica ainda mais”, completou.

Solano Guerreiro explicou que a limitação orçamentária e o alto custo das passagens — que podem superar R$ 5 mil por trecho — afetam não apenas o cotidiano, mas também a participação docente em eventos acadêmicos, como bancas, projetos e parcerias, o que compromete a integração institucional e limita a visibilidade das pesquisas desenvolvidas na região, além da atuação sindical.

Diante desses entraves, a participação remota passou a ser utilizada como alternativa, ampliada após a pandemia da Covid-19. Segundo o professor, no entanto, esse recurso não supera os entraves estruturais impostos pelo isolamento geográfico e pela falta de financiamento.

Apesar das dificuldades, Solano afirmou que a permanência no município é uma escolha consciente. “Já tive outras possibilidades de ir para a capital, mas, por escolha minha, optei por permanecer em Benjamin Constant, que é uma cidade tranquila e boa de se morar, apesar das muitas dificuldades que os interiores do Amazonas têm — diferentes dos interiores de outros estados. Isso porque, em Benjamin Constant e em mais de 90% dos municípios, tudo é feito por via fluvial; a gente não pensa em horas, pensa em dias”, contou. O docente destacou ainda o papel estratégico da universidade em uma região de fronteira, onde ensino, pesquisa e extensão têm impacto direto nas comunidades locais. 

Transporte fluvial na Amazônia. Foto: Governo Federal/Divulgação

Para Guerreiro, os cortes orçamentários nas instituições de ensino impactam diretamente o cotidiano do trabalho docente.

“As nossas condições de trabalho são bastante desafiadoras por causa dos recursos minguados e das inúmeras atividades que precisamos realizar com pouco recurso. Fazemos um esforço enorme para manter o ensino, a pesquisa e a extensão — e agora também a parte administrativa. Estão jogando cada vez mais para os docentes a responsabilidade pela administração das instituições de ensino superior, em razão da redução do número de técnicos, justamente pelos cortes que as instituições vêm sofrendo. Então, é realmente muito desafiador trabalhar nessas condições”, disse.

A experiência de Solano Guerreiro, na fronteira amazônica, não é um caso isolado. Ela dialoga com a realidade de docentes de diferentes regiões do país, que enfrentam desigualdades históricas de condições de trabalho, assimetrias de carreira, cortes orçamentários e sobrecarga de funções. 

Para o ANDES-SN, enfrentar essas desigualdades passa pela defesa de uma carreira única, de condições dignas de trabalho e do financiamento público adequado, elementos centrais para garantir ensino, pesquisa e extensão de qualidade e socialmente referenciados.

*Este texto integra uma série de perfis sobre as realidades do trabalho docente nas instituições públicas de ensino. Os demais perfis serão publicados ao longo das semanas no site do ANDES-SN (www.andes.org,br)

Fonte: https://www.andes.org.br/conteudos/noticia/serie-sobre-trabalho-docente-destaca-desigualdades-de-carreira-territorio-e-condicoes-estruturais1

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