Na capital da resistência, 44º Congresso do ANDES-SN reúne mais de 600 docentes em Salvador
Em Salvador (BA), cidade marcada por históricas lutas de resistência, teve início na manhã desta segunda-feira (2), o 44º Congresso do ANDES-SN. O encontro tem como tema central “Na capital da resistência, das revoltas dos Búzios e dos Malês: ANDES-SN nas lutas e nas ruas, pela democracia e educação pública, contra as opressões e a extrema direita!”.

Foto: Prof. Fabio, presidente do SINDCEFET-MG, falando na abertura do congresso do ANDES-SN

Organizado pela Regional Nordeste III do Sindicato Nacional e pela Comissão Organizadora da Universidade Federal da Bahia (UFBA), formada pelo Coletivo Democracia e Luta, o evento reúne mais de 640 docentes de todo o país, representantes de 89 seções sindicais, até o dia 6 de março para debater a conjuntura nacional e internacional, os desafios da educação pública e os rumos da luta docente.
A Plenária de Abertura contou com a participação de representantes do ANDES-SN, da UFBA, de movimentos sociais, de entidades do movimento negro, estudantil e sindical e de organizações da sociedade civil e coletivos ligados à universidade.
Antonio Bomfim, representante do Sindicato dos Técnico-Administrativos em Educação das Universidades Públicas Federais da Bahia (Assufba), falou sobre o processo de retomada da greve das técnicas e dos técnicos administrativos da UFBA, a partir da próxima quinta-feira (5). A mobilização integra a greve nacional da Fasubra, que cobra o cumprimento integral do Termo de Acordo nº 11/2024, que trata da reestruturação da carreira das servidoras e dos servidores da Educação Federal, mudanças na progressão, a criação do Reconhecimento de Saberes e Competências (RSC) e a unificação da matriz remuneratória.
“O que foi pactuado no acordo de greve precisa ser respeitado. Aqui em Salvador, neste momento, estamos iniciando uma greve e já temos um calendário de lutas para reverter o quadro de dificuldades que enfrentamos”, afirmou. Para Bomfim, a realização do 44º Congresso do ANDES-SN na capital baiana reafirma a importância de fortalecer as lutas em defesa da democracia, da educação pública e contra todas as formas de opressão. Ele também destacou a memória das lutas históricas do povo baiano. “Aqui honramos a memória das revoltas dos Malês e dos Búzios. Só nos resta a luta. Lutar é o nosso caminho”, concluiu.

Maíra Kubik, representante do Coletivo Democracia e Luta, deu as boas-vindas às delegações e destacou a importância da UFBA receber novamente o principal encontro deliberativo da categoria, após 22 anos. Em sua fala, saudou a presença das pessoas que contribuíram para a organização do evento e ressaltou o processo coletivo que tornou possível a realização do Congresso.
A docente relembrou mobilizações recentes da categoria na UFBA, como a realização de uma das maiores assembleias da história da universidade, durante a greve docente de 2024 e, outra, realizada em seguida, que reuniu mais de 300 pessoas e decidiu pela desfiliação do sindicato da Proifes-Federação. Ela também mencionou a rejeição da proposta de criação de um sindicato estadual de docentes das universidades federais da Bahia e a forte participação da categoria no plebiscito popular contra a escala 6X1, realizado no ano passado.
Maíra ressaltou ainda que o 44º Congresso foi construído coletivamente com esforço das regionais do ANDES-SN e agradeceu o apoio de setores da universidade, das trabalhadoras e dos trabalhadores terceirizados da UFBA e de entidades parceiras, além do Grupo de Trabalho das Oposições (GTO), que contribuiu para a organização do evento. “Este é um Congresso construído coletivamente, mesmo sem a existência de uma seção sindical e sem contar com uma estrutura técnica adequada na universidade”, afirmou.
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Cláudio Mendonça, presidente do ANDES-SN, destacou o contexto político e social marcado pelo aprofundamento das desigualdades e pelos ataques aos direitos sociais e ao serviço público. “O mundo vive um momento de aprofundamento das desigualdades. Enquanto uma pequena parcela concentra a riqueza socialmente produzida, grande parte da população enfrenta fome, precarização e perda de direitos, resultado direto da lógica do capitalismo”, avaliou.
O presidente do Sindicato Nacional também ressaltou a importância da mobilização da classe trabalhadora para enfrentar projetos que atacam o serviço público e os direitos sociais. “A derrota da Reforma Administrativa [PEC 32], em um passado recente, foi resultado da mobilização da classe trabalhadora. Sabemos, no entanto, que esses ataques continuam avançando por outros caminhos e, por isso, será necessária muita unidade e organização para defender o serviço público e os direitos sociais”, destacou.
Mendonça também ressaltou o significado político de realizar o Congresso em Salvador, cidade marcada por importantes processos históricos de resistência. “Realizar este evento na Bahia tem um significado profundo. Estamos na capital mais negra do país, em um território marcado por importantes lutas do povo brasileiro contra a opressão, o racismo e as desigualdades”, afirmou.
Ao final, o presidente Sindicato Nacional reforçou a importância da unidade e da mobilização da categoria, diante do cenário político atual. “A derrota da extrema direita não se dará em um único momento. Ela exige organização permanente, mobilização nas ruas e unidade entre os movimentos sociais e sindicais”, concluiu, ao declarar aberto o 44º Congresso do ANDES-SN.

Também compuseram a mesa da Plenária de Abertura integrantes da diretoria do ANDES-SN — Fernanda Maria, secretária-geral; Sérgio Barroso, 1º tesoureiro; e Aroldo Félix, 1º vice-presidente da Regional Nordeste III —, além de Rita de Cássia dos Santos, do MSTB; Maíra Vida, da Coalizão Negra por Direitos; Karina Sales, do Fórum das ADs da Bahia; Ana Paula Nunes, do Coletivo de Mães da UFBA; Ana Luiza Passos, da Fenet; Luiz Fernando Bandeira, da Fasubra; Elaine Oliveira, do MST; Fabiano Paixão, do MAM; Tiago de Almeida, da ANPG; Heleni Dantas, da FNCPS; • Louise Ferreira, da UNE; e Fábio Nogueira, do MTST.
A plenária contou ainda com apresentação do violinista Mário Soares, que interpretou, com emoção, os hinos “A Internacional” e “2 de Julho”.
Publicações
Foi lançada a edição 77 da revista Universidade e Sociedade, com o tema “Educação Pública em Movimento: resistências e desafios da multicampia e em regiões de fronteira”.
A publicação reúne 12 artigos, entre eles uma contribuição internacional que aborda as lutas em defesa da educação e os movimentos de resistência nos Estados Unidos ao longo dos últimos 20 anos contra a nova direita. A edição também traz uma reportagem fotográfica sobre as mobilizações em defesa de salários e condições de trabalho nas universidades estaduais, municipais e distrital.
Um destaque apontado por Annie Hsiou, 3ª vice-presidenta do ANDES-SN e uma das integrantes da diretoria executiva da revista, foi o avanço na classificação da revista no sistema Qualis Periódicos, da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), alcançando a classificação A3 no quadriênio 2021-2024.
A avaliação reconhece o trabalho editorial desenvolvido, mesmo diante das contradições e pressões do produtivismo acadêmico. “Nesse sentido, a revista se consolida como um importante instrumento de disputa política e acadêmica em defesa do conhecimento público no Brasil”, disse a diretora do ANDES-SN.

Também participaram do lançamento integrantes da diretoria executiva da U&S: Letícia Mamed, 2ª vice-presidenta da Regional Norte I; Maria do Céu, 3ª tesoureira; e Eralci Moreira Terézio, 2º vice-presidente da Regional Pantanal. Acesse aqui a edição 77.
Durante a abertura foi lançada ainda a publicação “Docência sem Barreiras: Uma Cartilha Anticapacitista do ANDES-SN”, material voltado ao enfrentamento do capacitismo nas instituições públicas de ensino. O lançamento marcou um avanço histórico na luta por uma docência sem discriminação.
Fundamentada na Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015), a cartilha adota o Modelo Social da Deficiência, que compreende a deficiência como resultado da interação entre impedimentos e barreiras impostas pela sociedade — e não como uma doença ou limitação individual.
Segundo Letícia Carolina Nascimento, 2ª vice-presidenta do ANDES-SN e da coordenação do Grupo de Trabalho de Políticas de Classe para as Questões Étnico-raciais, de Gênero e Diversidade Sexual (GTPCEGDS), o material é resultado do acúmulo de debates e discussões realizados no âmbito do GT, contando também com suporte técnico e jurídico.

“O GT já conta com uma cartilha de combate ao racismo, uma cartilha de enfrentamento ao assédio e também com um protocolo voltado ao tema. Agora, estamos lançando para a categoria a cartilha anticapacitista”, afirmou.
Durante a apresentação, foi lembrado o legado de Marinalva Oliveira, docente e ex-presidenta do ANDES-SN (2012-2014), que militou nessa área e foi uma importante defensora da pauta dentro do Sindicato Nacional.
Estiveram presentes no lançamento e que fazem parte do GTPCEGDS: Caroline de Araújo Lima, 1ª vice-presidenta do ANDES-SN; Emanuela Chaves, 2ª vice-presidenta da Regional Nordeste II; e Gracinete de Souza, 2ª vice-presidenta da Regional Nordeste III. Acesse aqui a Cartilha.

Campanha de sindicalização
Outro momento importante da Plenária de Abertura foi a apresentação da Campanha de Sindicalização do ANDES-SN 2026, “O ANDES-SN é mais forte com você”, com a exibição de vídeos que resgatam a história da luta em defesa da educação pública, dos direitos da classe trabalhadora e por democracia. Foi anunciado ainda o envio de kits de sindicalização para todas as seções sindicais do ANDES-SN.
“Hoje, o ANDES-SN é a maior entidade sindical de base do Brasil, entre as entidades de primeiro grau, e a que reúne o maior número de filiados e filiadas. E vamos crescer ainda mais e fortalecer ainda mais a luta docente”, ressaltou Diego Marques, encarregado de Imprensa e Divulgação e integrante do Grupo de Trabalho de Comunicação e Arte (GTCA) do ANDES-SN. Participaram do lançamento Letícia Carolina Nascimento, Edmilson da Silva, 2º vice-presidente da Regional Sul, Marcelo Barreira, 2º vice-presidente da Regional Leste, integrantes do GTCA.
Apresentações culturais

O grupo de ogans da Casa de Oxumarê recebeu as e os docentes, na manhã desta segunda-feira, entoando toques sagrados e preservando a musicalidade que sustenta o culto aos orixás. Formado por jovens negros politizados, o coletivo une espiritualidade e consciência social, fortalecendo os valores da tradição afro-brasileira dentro e fora do espaço sagrado.
Em seguida, ocorreu a apresentação do artista Thiago Tupinambá, liderança jovem do povo Tupinambá de Abrantes e estudante da Escola de Belas Artes da UFBA, que realizou a apresentação cultural “Cantada Indígena”.




